Uma cidade inteligente não começa na tecnologia, começa na capacidade de entender como as pessoas querem viver

No Rio Innovation Week, debate sobre o futuro das cidades mostrou que inteligência urbana depende menos de acumular soluções tecnológicas e mais de conectar infraestrutura, desenvolvimento econômico, comportamento, identidade territorial e participação das pessoas.

Durante anos, falar em cidades inteligentes quase inevitavelmente significava falar de tecnologia: sensores, dados, conectividade, mobilidade, inteligência artificial e automação de serviços públicos. Tudo isso continua importante, mas talvez seja insuficiente para responder à pergunta: que cidade estamos tentando construir?

Foi a partir dessa provocação que o painel “Cidades Inteligentes e o Exercício do Futuro”, realizado durante o Rio Innovation Week, reuniu Beto Marcelino, Paulo Escrivano e Jean Vogel com a minha mediação, para discutir cidades não apenas como estruturas físicas ou plataformas tecnológicas, mas como organismos em constante transformação. Ao aproximar desenvolvimento territorial, infraestrutura, comportamento, mercado imobiliário, tendências de consumo e participação social, a conversa revelou uma mudança importante na própria ideia de cidade inteligente: tecnologia é meio e desenvolvimento é finalidade.

Jean Vogel, Paulo Escrivano, Rô Santiago e Beto Marcelino, foto Paulo Aragon / The Builders RIo

ANTES DE PREVER A CIDADE DO FUTURO, PRECISAMOS ENTENDER A CIDADE DESEJADA

Pensar o futuro das cidades costuma produzir imagens grandiosas com prédios conectados, veículos autônomos, sistemas preditivos e serviços automatizados, mas o exercício proposto no palco seguiu outra direção. Antes de perguntar quais tecnologias estarão disponíveis nos próximos anos, é preciso perguntar como as pessoas desejam viver nesses territórios.

Onde querem morar? Como desejam se deslocar? Que relação querem estabelecer entre trabalho, lazer, natureza e serviços? O que faz alguém escolher permanecer em uma cidade? E, principalmente: quem está sendo ouvido quando essas decisões são tomadas? Essa mudança de perspectiva coloca o cidadão não como usuário final de uma solução urbana, mas como parte da construção do próprio futuro da cidade.

Beto Marcelino, foto Paulo Aragon / The Builders Rio

Beto Marcelino ampliou essa discussão ao propor uma leitura da cidade como um ecossistema de desenvolvimento. Nesse olhar, não existe inteligência urbana quando os elementos do território são tratados isoladamente, água, infraestrutura, economia, mobilidade, turismo, gastronomia, cultura, inovação, startups e modos de vida fazem parte de um mesmo sistema, onde uma intervenção em uma dessas dimensões produz consequências nas demais. 

Por isso, desenvolver uma cidade exige mais do que implementar projetos pontuais, exige capacidade de articulação. É justamente nessa interdependência que a ideia de ecossistema ganha força: uma cidade se torna mais inteligente quando consegue fazer seus diferentes ativos conversarem entre si.

Rô Santiago, foto Paulo Aragon / The Builders Rio

No Rio de Janeiro, essa discussão ganha uma camada adicional, onde poucas cidades possuem uma relação tão determinante entre geografia, natureza, cultura, economia e identidade. Pensar o desenvolvimento urbano no Rio significa necessariamente compreender essa combinação.

CONSTRUIR TAMBÉM É INTERPRETAR O COMPORTAMENTO

A discussão sobre infraestrutura encontrou outra perspectiva na contribuição de Jean Vogel, onde desenvolvimento urbano e mercado imobiliário não acontecem separados das transformações sociais. Para ele, mudanças na forma de trabalhar alteram o morar e na composição das famílias alteram os imóveis. Novas relações com mobilidade, serviços e lazer modificam bairros e novos estilos de vida transformam aquilo que as pessoas esperam de uma cidade.

Jean Vogel, foto Paulo Aragon / The Builders RIo

Isso significa que construir o futuro urbano não é apenas uma questão de engenharia, é também um exercício permanente de interpretação de comportamento. Um empreendimento pode durar décadas e uma infraestrutura urbana, ainda mais. Quem projeta hoje está, inevitavelmente, tomando decisões sobre uma sociedade que ainda está mudando.

É nesse ponto que a leitura de tendências trazida por Paulo Escrivano se conecta às demais dimensões do debate, o cientista do consumo explica que observar comportamento não significa simplesmente tentar adivinhar o que estará na moda daqui a alguns anos. Significa identificar sinais: novos desejos, incômodos, mudanças de hábito, aspirações. Transformações culturais que começam pequenas e, pouco a pouco, modificam a maneira como as pessoas vivem.

Quando aplicada às cidades, essa capacidade de leitura permite substituir uma lógica exclusivamente prescritiva por outra baseada em escuta. A pergunta deixa de ser  “o que podemos construir?” e passa a ser “o que as pessoas estão nos dizendo que precisam?”

Paulo Escrivano, foto Paulo Aragon / The Builders Rio

A CIDADE INTELIGENTE TAMBÉM PRECISA PRESERVAR SUA ESSÊNCIA

Existe ainda uma tensão importante nesse processo, onde as cidades competem por talentos, empresas, investimentos, turistas, eventos e moradores. Nesse esforço por se tornarem mais eficientes e atraentes, porém, existe o risco de os territórios começarem a reproduzir as mesmas soluções, os mesmos empreendimentos, os mesmos modelos urbanos e as mesmas experiências. Por isso, inteligência territorial também significa reconhecer aquilo que não deveria ser apagado pela inovação.

A identidade de uma cidade não é obstáculo ao desenvolvimento, ela pode ser justamente um de seus maiores ativos. No caso do Rio, a natureza, a cultura, a criatividade, a economia do mar, a gastronomia e o modo de vida não são elementos periféricos da estratégia de desenvolvimento, são parte dela.

Jean Vogel, Paulo Escrivano, Rô Santiago e Beto Marcelino, foto Paulo Aragon / The Builders Rio

O EXERCÍCIO DO FUTURO É FEITO NO PRESENTE

Talvez essa tenha sido a principal convergência da conversa, onde o futuro das cidades não começa quando uma determinada tecnologia estiver disponível. Ele já está sendo construído em cada empreendimento aprovado, em cada infraestrutura implantada, em cada política pública, em cada decisão sobre mobilidade, em cada espaço de participação aberto, ou fechado, para a população. E em cada escolha sobre quais vocações de um território serão estimuladas.

Por isso, imaginar cidades inteligentes exige um exercício menos tecnológico do que parece, exige escuta, articulação e capacidade de leitura, onde é necessário escutar as pessoas, articular os diferentes atores que constroem o território e  interpretar os sinais que mostram como nossa relação com a cidade está mudando. Foi um consenso entre todos os participantes que a cidade mais inteligente não é aquela que consegue instalar mais tecnologia, mas aquela que consegue compreender melhor quem vive nela, o que torna aquele território único e que futuro essas pessoas desejam construir juntas.

Link livro “Zero-Click Government” indicado pelo Beto Marcelino

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