IA também é infraestrutura: Rio cria nova frente para ampliar capacidade tecnológica de startups
Iniciativa anunciada pela Prefeitura do Rio e AWS durante o Rio Innovation Week conecta capacidade computacional, dados públicos, startups e desafios urbanos e coloca a curadoria de problemas no centro da estratégia para transformar acesso à tecnologia em impacto.
Durante boa parte da explosão recente da inteligência artificial, a discussão esteve concentrada nos modelos: quem desenvolveu o mais avançado, qual ferramenta consegue realizar determinada tarefa e quais novas aplicações podem surgir a partir delas. Mas, à medida que a tecnologia amadurece, outra discussão começa a ganhar relevância: quem efetivamente possui infraestrutura para construir com IA?
Treinar, testar e colocar soluções em operação exige capacidade computacional, armazenamento, dados, conhecimento técnico e recursos financeiros. Para grandes empresas, essa equação já representa um desafio. Para uma startup em seus primeiros estágios, pode determinar se uma boa ideia chegará ou não ao mercado.

Foi justamente nesse ponto que Prefeitura do Rio e Amazon Web Services (AWS) anunciaram, durante o Rio Innovation Week 2026, uma nova iniciativa para ampliar o acesso de startups cariocas à infraestrutura em nuvem, ferramentas de inteligência artificial, capacitação e suporte tecnológico. A assinatura simbólica do protocolo de intenções aconteceu no RIW Revolution, palco com curadoria da PD7 Tech, e reuniu representantes da Prefeitura, AWS, Maravalley, PUC-Rio e instituições ligadas ao ecossistema de inovação da cidade.
Mais do que oferecer tecnologia, porém, a proposta abre uma discussão importante para o próximo estágio da IA no Rio: infraestrutura para resolver quais problemas? A iniciativa pretende alcançar um universo de aproximadamente 600 startups mapeadas no Rio de Janeiro, aproximando empresas locais dos recursos oferecidos pelo AWS Activate, programa que disponibiliza créditos, suporte técnico, treinamentos e outras ferramentas para startups.

Durante o anúncio, Karina também recuperou sua própria trajetória como carioca vinda da comunidade do Acari para falar sobre o potencial existente nos diferentes territórios da cidade. A questão é relevante porque democratizar a inteligência artificial não significa apenas colocar ferramentas nas mãos de mais pessoas, significa ampliar as condições para que novos atores possam construir tecnologia, e não apenas consumi-la. É justamente aí que a infraestrutura passa a ser também uma questão de competitividade.
Outro componente da iniciativa será a curadoria das startups e dos desafios que poderão ser priorizados. A PD7 Tech participará desse processo, ajudando a identificar negócios que estejam aplicando tecnologia a problemas concretos. “Ajudaremos a identificar quem são essas startups e qual dor social elas realmente estão resolvendo”, afirmou Paulo Duarte, fundador e CEO da PD7 Tech.
A frase aponta para uma mudança importante na conversa sobre inteligência artificial, em que depois de um primeiro momento marcado pela experimentação quase indiscriminada de novas ferramentas, empresas e instituições começam a enfrentar uma pergunta mais pragmática: qual problema estamos tentando resolver?
A infraestrutura importa, o modelo importa e a capacidade computacional importa, mas nenhum desses elementos, isoladamente, produz impacto. A tecnologia só começa a gerar valor quando encontra um problema suficientemente relevante para justificar sua utilização.
E SE A CIDADE TAMBÉM VIRAR MATÉRIA-PRIMA PARA A IA?
Nesse processo, o Rio possui outro ativo: dados. O Data Lake da Prefeitura, gerido pela IplanRio, reúne dados públicos estruturados que poderão fazer parte dessa articulação e servir como insumo para o desenvolvimento de aplicações voltadas aos desafios urbanos.

Essa combinação muda a dimensão da iniciativa, porque não se trata apenas de oferecer créditos computacionais para startups desenvolverem seus próprios produtos. Ao aproximar infraestrutura, dados, problemas urbanos e empreendedores, a cidade cria condições para funcionar também como ambiente de desenvolvimento e experimentação de novas soluções. A iniciativa está inserida no Rio.IA, programa de inovação aberta desenvolvido com participação da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) e do Instituto ECOA da PUC-Rio.
O MARAVALLEY TAMBÉM INTEGRA A ARTICULAÇÃO
Se capacidade computacional é um recurso valioso, decidir quem terá acesso a ela passa a ser parte da estratégia. Para Daniel Barros, CEO do Maravalley, esse é um dos próximos desafios. “Acho que o desafio agora é fazer a curadoria para criar os programas e definir os critérios de acesso a essa capacidade computacional”, afirmou. Um mapeamento recente (leia aqui) identificou cerca de 600 startups no ecossistema carioca. Segundo o hub, aproximadamente 100 empresas ligadas ao Maravalley já possuem acesso a um programa de créditos da AWS.
A escala potencial da nova iniciativa exige, portanto, critérios como o estágio da empresa, a capacidade técnica, o problema enfrentado, o potencial de impacto e as condições para transformar infraestrutura em produto são algumas das questões que naturalmente passam a fazer parte dessa discussão. E talvez esteja aí um dos aspectos mais interessantes dessa oportunidade, porque quando um recurso deixa de ser abundante, a curadoria também se transforma em infraestrutura. Não basta disponibilizar capacidade computacional, é preciso criar mecanismos para que ela encontre empresas capazes de utilizá-la de maneira relevante.
O anúncio também dialoga com uma discussão que atravessou a programação do RIW Revolution ao longo dos quatro dias do Rio Innovation Week. Sob curadoria da PD7 Tech, o palco reuniu empresas globais de tecnologia, poder público, universidades, pesquisadores e representantes do mercado para discutir infraestrutura de IA, data centers, energia, computação de alto desempenho, soberania tecnológica e formação de talentos.
Os temas parecem diferentes, mas fazem parte da mesma equação, já que compreendemos que não existe expansão da inteligência artificial sem capacidade computacional e que não existe capacidade computacional em escala sem energia. Além disso, a infraestrutura sem o software não resolve problemas, a tecnologia sem profissionais capacitados não ganha escala e os dados sem governança dificilmente se transformam em inteligência. É justamente a partir da articulação dessas diferentes camadas que começa a determinar quais cidades e ecossistemas conseguirão participar da próxima etapa da economia da IA.
“A infraestrutura é fundamental, mas ela precisa chegar a quem consegue transformá-la em solução. Ao aproximar tecnologia, startups e desafios reais da cidade, conseguimos criar condições para que a inteligência artificial gere desenvolvimento e impacto concreto”, destacou Paulo Duarte.
DO ACESSO À CAPACIDADE DE CONSTRUIR
Entre os próximos movimentos apresentados para o ecossistema estão iniciativas relacionadas à saúde, games e transição energética, além da criação de ambientes nos quais soluções possam ser testadas antes de uma adoção em maior escala. São movimentos ainda em construção, mas o anúncio realizado durante o Rio Innovation Week sinaliza algo maior. Durante os últimos anos, boa parte da discussão sobre democratização da inteligência artificial esteve associada ao acesso às ferramentas. A próxima fronteira talvez seja mais complexa, porque democratizar a IA será também democratizar a capacidade de construir com ela.
Isso significa aproximar infraestrutura computacional, dados, conhecimento, talentos e problemas reais. O Rio possui parte desses ativos espalhados por universidades, empresas, hubs, governo e comunidades empreendedoras, o desafio agora é conectá-los. Porque, se a inteligência artificial está se tornando uma nova camada de infraestrutura econômica, a vantagem dos ecossistemas não estará apenas em utilizar a tecnologia. Estará na capacidade de criar condições para que mais gente possa transformá-la em solução.
