Rio aquece agenda de IA com lançamento do AI Cities Summit

Encontro antecipou debates da primeira edição do summit na América Latina, marcada para 19 e 20 de maio de 2027 no Rio, e reuniu lideranças de energia, data centers, tecnologia, academia e poder público.

O Rio de Janeiro será a primeira cidade da América Latina a receber o AI Cities Summit, nos dias 19 e 20 de maio de 2027. O lançamento da edição, realizado no Instituto 12 na terça-feira, 11, deu início a uma agenda de discussões que deve ganhar força até lá: que posição o Rio pretende ocupar na expansão global da infraestrutura e da economia associadas à inteligência artificial.

A qualidade da conversa ajudou a dimensionar o tema, onde executivos de data centers e infraestrutura crítica dividiram espaço com especialistas em energia, pesquisadores, representantes do poder público e lideranças diretamente envolvidas nos projetos que começam a redesenhar a capacidade computacional instalada no estado. Não era uma discussão sobre uma única indústria. Energia, refrigeração, transmissão, conectividade, processamento, formação de talentos, pesquisa, regulação, capital e desenvolvimento urbano apareceram como partes de uma mesma equação.

O próprio perfil do encontro ajuda a entender o estágio dessa agenda no Rio, mostrando que a conversa já não está restrita à possibilidade de atrair investimentos. Há projetos em curso, empresas fazendo movimentos antecipados, capacidade instalada crescendo e uma articulação pública interessada em posicionar a cidade nessa nova geografia econômica.

UMA CIDADE PRECISA ESCOLHER ONDE QUER COMPETIR

Sidney Levy, foto Felipe Manoel Gomes

Sidney Levy, presidente da Invest.Rio, participou das discussões a partir da perspectiva da articulação entre poder público, empresas e os diferentes agentes envolvidos nessa infraestrutura. Em sua participação, Levy tratou justamente da necessidade de coordenação. Projetos dessa escala atravessam diferentes instâncias regulatórias, fornecedores de energia, investidores, operadores e governos e a capacidade de colocar esses atores na mesma direção passa a fazer parte da competitividade do território.

Esse ponto encontra uma discussão que vem ganhando força no Rio: grandes investimentos tecnológicos não chegam a uma cidade apenas porque existe demanda. Eles procuram ambientes capazes de oferecer previsibilidade, energia, conectividade, mão de obra, interlocução institucional e condições de expansão. E o Rio já possui parte dos ativos relevantes nessa disputa.

O RIO JÁ TEM UMA INDÚSTRIA DE DATA CENTERS

Victor Arnaud, foto Feilipe Manoel Gomes

Os números apresentados por Victor Arnaud, presidente da Equinix Brasil, ajudam a colocar essa infraestrutura em perspectiva. A companhia opera atualmente nove data centers no país, três deles na região metropolitana do Rio de Janeiro e uma das unidades está em expansão, com nova capacidade prevista para entrar em operação no quarto trimestre de 2026. Segundo Arnaud, a empresa também acompanha terrenos estratégicos no estado para possíveis novas fases de crescimento.

Para ele, o Rio ocupa uma posição particular na arquitetura digital brasileira pela combinação entre conectividade internacional, presença de setores intensivos em dados e complementaridade com São Paulo. Cabos submarinos conectam diretamente a região a outros mercados globais, enquanto setores como energia, óleo e gás geram demanda por processamento, segurança e interconexão. A presença simultânea nos mercados do Rio e de São Paulo também permite a construção de estruturas de redundância e continuidade para grandes empresas.

A expansão acompanha uma mudança importante no perfil da própria infraestrutura. A Equinix destinou, segundo Arnaud, mais de R$ 1 bilhão ao mercado brasileiro nos últimos 12 meses, incluindo investimentos para suportar maior densidade energética, refrigeração líquida e novas arquiteturas associadas às cargas de IA.

Mas a escala traz também seus gargalos. Arnaud aponta a imprevisibilidade tributária, o custo de importação de equipamentos como GPUs, o acesso à transmissão de energia em alta tensão e a formação de profissionais especializados entre os pontos que podem determinar quanto dessa nova economia será efetivamente capturada pelo país. O risco é bastante concreto: ter energia, dados e conectividade, mas deixar o processamento, e parte importante do valor econômico associado a ele, acontecer fora do Brasil.

PREPARAR A INFRAESTRUTURA ANTES DE A DEMANDA CHEGAR 

Alessandro Lombardi, foto Felipe Manoel Gomes

Esse descompasso entre o ritmo da tecnologia e o tempo necessário para construir infraestrutura apareceu também na participação de Alessandro Lombardi, presidente da Elea Data Centers. Durante a sua participação em um dos painéis do evento, Lombardi contou que a empresa começou a adquirir equipamentos de liquid cooling ainda no fim de 2024. O movimento antecipava uma necessidade que agora passa a acompanhar as cargas computacionais de alta densidade utilizadas em inteligência artificial.

Há uma questão de timing importante nesta indústria, um data center por exemplo não amplia sua capacidade na mesma velocidade em que uma nova aplicação é lançada. Energia, equipamentos, sistemas de refrigeração, fornecedores, obras e capital precisam estar disponíveis antes. Por isso, Lombardi chamou atenção para a cadeia de relações necessária para entregar projetos em prazos compatíveis com o mercado. A relação da Elea com fornecedores estratégicos, construída ao longo de anos, permite hoje trabalhar com horizontes menores de implantação de determinadas soluções.

Depois do painel, em conversa exclusiva com o The Builders Rio, a discussão avançou da infraestrutura física para o impacto que uma operação dessa escala pode provocar no território. Lombardi afirmou que a oportunidade não termina na construção dos data centers. Ao redor deles cresce uma cadeia que envolve equipamentos, software, engenharia, energia, serviços especializados, segurança, conectividade, pesquisa e formação profissional. É nessa camada que um grande projeto tecnológico começa a se encontrar com uma estratégia de desenvolvimento econômico.

Lançamento The AI Cities Summit, foto Felipe Manoel Gomes

A disponibilidade energética brasileira apareceu ao longo do encontro como uma vantagem competitiva importante, mas também como uma variável que precisa ser coordenada com velocidade. As novas cargas de inteligência artificial alteraram substancialmente a densidade dos data centers e processamento em GPUs, refrigeração líquida e grandes clusters computacionais exigem uma estrutura energética muito diferente daquela necessária para operações tradicionais.

Ao mesmo tempo, o Brasil entra nesta corrida com uma matriz elétrica predominantemente renovável e um sistema nacional interligado que cria condições diferentes das encontradas em alguns dos mercados mais pressionados por demanda de data centers. O desafio deixa então de ser apenas ter energia disponível, é necessário fazer com que transmissão, licenciamento, capital e implantação caminhem na mesma velocidade dos projetos. Essa combinação ajuda a explicar por que a transição energética, infraestrutura digital e inteligência artificial estão se aproximando cada vez mais dentro da mesma agenda econômica.

Outro debate relevante do painel veio da academia e da pesquisa: capacidade computacional, sozinha, não determina uma posição competitiva. A discussão passou pela necessidade de escolher aplicações em que o Rio já possui conhecimento, dados, empresas e pesquisadores capazes de produzir diferenciação.

Energia e óleo e gás aparecem naturalmente nessa lista, saúde é outro campo relevante e a própria cidade surge como ambiente de aplicação, pela quantidade de dados urbanos, instituições e experiências acumuladas em áreas como mobilidade, serviços públicos e gestão territorial. Há uma vantagem importante nessa abordagem, onde ao invés de tentar disputar indistintamente cada camada da corrida global por IA, o território pode concentrar investimento e conhecimento nos setores em que já possui massa crítica.

E o mesmo raciocínio vale para talento. Ao final do painel, quando os participantes foram convidados a apontar gargalos para os próximos meses, formação e atração de profissionais apareceram entre os temas centrais. O Rio possui universidades, pesquisadores e centros de excelência. A velocidade da transformação, porém, cria uma demanda que dificilmente será atendida apenas pela formação tradicional. Reter quem já está aqui, trazer de volta profissionais que deixaram a cidade e atrair gente de outros mercados também passa a fazer parte dessa estratégia.

A CAMINHO DE MAIO DE 2027

Lançamento The Ai CIties Summit, foto Felipe Manoel Gomes

O lançamento do AI Cities Summit cumpriu, assim, uma função que vai além de anunciar a chegada inédita do evento à América Latina. Os próximos meses serão justamente o período em que muitas das peças discutidas no encontro precisarão avançar: expansão de capacidade, energia, investimentos, fornecedores, talentos, regulação e articulação institucional. Quando o summit acontecer no Rio, em 19 e 20 de maio de 2027, parte do interesse estará em observar quanto dessa agenda avançou e quais novas questões terão surgido no caminho.

O Rio já reúne empresas operando data centers, novos investimentos anunciados, centros de pesquisa, universidades, disponibilidade energética, conectividade internacional e uma movimentação pública interessada em transformar esses ativos em posicionamento econômico. A primeira edição latino-americana do AI Cities Summit ainda está a nove meses de distância, mas a conversa que vai levá-la até lá já começou.

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