O que o Panorama das Startups Cariocas realmente revela sobre o Rio de Janeiro
Após dezoito meses acompanhando o ecossistema de perto, vejo no Panorama das Startups Cariocas algo que vai além dos números: a confirmação de que uma estratégia de longo prazo começa a produzir evidências concretas.
Quando cheguei ao ecossistema de inovação, ainda observava tudo de fora. Meu trabalho estava muito mais conectado à comunicação, ao posicionamento de pessoas, marcas e projetos. A inovação já aparecia no meu radar, mas ainda como um território que eu acompanhava como observador.
Isso mudou em janeiro de 2025, quando passei a integrar o Maravalley como relações públicas. Desde então, acompanho diariamente reuniões, eventos, lançamentos, articulações institucionais, anúncios, programas de aceleração, visitas técnicas, missões internacionais e conversas entre atores que normalmente não ocupam a mesma mesa. É uma posição privilegiada, porque me permite observar processos. E foi exatamente por isso que o lançamento do Panorama das Startups Cariocas (baixe aqui) me chamou tanta atenção, porque eles ajudam a medir algo que, até pouco tempo atrás, era percebido apenas de forma intuitiva.

O levantamento elaborado pela Prefeitura do Rio, por meio da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico e a Riotur, em parceria com o Maravalley, foi desenvolvido com base em dados da plataforma Zoox Eye da Zoox Smart, empresa carioca de tecnologia especializada em soluções de inteligência artificial e análise dados mostra mais de 600 startups mapeadas na cidade e uma participação econômica equivalente a cerca de 1,3% do PIB carioca. O número impressiona por si só, mas talvez o aspecto mais relevante seja outro, porque ele mostra que a conversa sobre inovação no Rio começa a deixar o campo das expectativas para entrar no campo das evidências.
Durante muito tempo, o debate sobre tecnologia e empreendedorismo na cidade esteve concentrado em potencial, falava-se sobre vocação, possibilidades e oportunidades futuras. O estudo então ajuda a mostrar que já existe impacto econômico acontecendo agora e isso muda a natureza da discussão. Ao mesmo tempo, os dados também revelam algo que considero igualmente importante: ainda existe um enorme espaço para crescimento. Quando observamos a dimensão econômica do Rio de Janeiro, sua posição como segunda maior economia do país e sua relevância nacional, fica evidente que o ecossistema de startups ainda pode avançar muito mais.
O diagnóstico é positivo, mas ele está longe de sugerir missão cumprida, pelo contrário. Talvez a principal contribuição do estudo seja justamente oferecer uma linha de base para acompanhar essa evolução ao longo dos próximos anos, porque se novos levantamentos forem realizados periodicamente, será possível medir não apenas o crescimento do número de startups, mas também a maturidade do ecossistema, sua distribuição territorial, sua capacidade de gerar empregos, atrair investimentos e produzir inovação em escala.
Outro dado que considero especialmente simbólico está relacionado à concentração das startups na região central da cidade. Existe uma discussão recorrente sobre revitalização urbana, ocupação do centro e novos usos para a região portuária e o levantamento mostra que essas agendas não estão desconectadas. A presença significativa de empresas de tecnologia naquela região indica que políticas públicas podem sim influenciar comportamentos econômicos quando são desenhadas com objetivos claros. A redução do ISS para empresas de tecnologia é um exemplo disso, porque não se trata apenas de um incentivo fiscal, trata-se de um mecanismo capaz de induzir ocupação, atrair empresas e estimular a formação de redes de relacionamento em um território específico. E ecossistemas são, essencialmente, redes.

Essa talvez seja a principal lição que aprendi acompanhando esse processo nos últimos dezoito meses: nenhum ambiente de inovação prospera apenas porque possui infraestrutura. Ele cresce quando consegue conectar atores (empreendedores, investidores, universidades, grandes empresas, poder público e instituições de apoio). Boa parte do trabalho realizado hoje no Rio está justamente concentrada na missão de criar encontros, estimular a colaboração, reduzir distâncias e acelerar conexões.
Por isso, quando vejo o panorama sendo lançado durante o Web Summit Rio, não enxergo apenas um relatório. Vejo uma fotografia de um momento específico de uma construção muito maior. Uma construção que não começou agora, que não terminará nos próximos anos e que foi desenhada para responder a desafios históricos da cidade através de uma estratégia de longo prazo.
O Panorama das Startups Cariocas não é um retrato apenas do Maravalley, ele é um retrato do ecossistema. Mas, para quem acompanha essa agenda de perto, os dados ajudam a confirmar algo que já começava a aparecer na prática: existe uma estratégia em curso, ela está produzindo resultados observáveis e, talvez mais importante, agora ela também pode ser medida. E quando um ecossistema começa a produzir evidências, as decisões deixam de ser tomadas apenas por convicção e passam a ser tomadas com base em dados. E isso costuma ser um sinal de maturidade.
