Inovar a própria carreira começa antes da oportunidade: começa pela intenção

Durante o Rio Innovation Week, especialistas em pesquisa, tecnologia e sustentabilidade refletiram sobre como a autoria das escolhas, a tradução das competências e a redefinição do sucesso vêm redesenhando as carreiras contemporâneas.


No Rio Innovation Week, há painéis que discutem tendências, tecnologias e mercados. E há conversas que, embora estejam inseridas nesse contexto, acabam tratando de uma tecnologia ainda mais complexa: a capacidade humana de construir uma trajetória profissional em um mundo que já não oferece roteiros prontos. Foi exatamente esse o ponto de partida do painel “Inovar a própria carreira: navegando oportunidades em um mundo sem roteiros prontos”, realizado na Conferência Open Innovation, com minha mediação e participação de Francine Tavares, fundadora da Dobra; Karina Lima, Head of Startups da Amazon Web Services; e Taiana Jung, sócia-fundadora da Logos Consultoria.


As quatro trajetórias reunidas no palco já eram, por si só, uma provocação: uma pesquisadora que transformou um incômodo entre academia e mercado em uma startup; uma professora de Geografia que hoje atua em sustentabilidade, responsabilidade social e conselhos; uma bailarina que chegou à liderança de startups de uma das maiores empresas de tecnologia do mundo; e um produtor de eventos que construiu uma carreira como comunicador, relações públicas, autor e mediador.

Foto Paulo Aragon / The Builders Rio

Nenhum desses caminhos era previsível e talvez justamente por isso eles tenham revelado uma mesma ideia ao longo de toda a conversa: carreiras não são encontradas, elas são construídas. Mais do que isso: elas são construídas por meio de escolhas intencionais.

A INTENCIONALIDADE NÃO ELIMINA O ACASO, ELA PREPARA PARA ELE 

Ao abrir o painel, eu propus uma reflexão que acabou atravessando toda a conversa: vivemos em um mercado onde não controlamos quase nada do ambiente externo, onde novas profissões surgem e outras desaparecem. Empresas mudam, tecnologias aceleram transformações e o acaso continua existindo. Mas existe algo que permanece sob nossa responsabilidade: a maneira como nos posicionamos, as competências que escolhemos desenvolver, os ambientes que frequentamos, as pessoas com quem caminhamos e os projetos que decidimos construir. Em outras palavras, não controlamos as oportunidades que aparecerão, mas podemos controlar o quanto estaremos preparados para reconhecê-las quando surgirem.

Rô Santiago, foto Paulo Aragon / The Builders Rio

Karina Lima trouxe para o debate sua experiência conduzindo mudanças de carreira a partir de um modelo mental baseado em pontos fortes, lacunas, valores prioritários e pilares de motivação. Para ela, assumir a autoria da própria trajetória passa por desenvolver autogestão antes de buscar controle. A carreira deixa de ser apenas uma sucessão de oportunidades externas e passa a ser um exercício constante de leitura sobre quem somos, quais ambientes potencializam nossas capacidades e quais decisões fazem sentido naquele momento da vida.

Karina Lima, foto Paulo Aragon / The Builders Rio

Essa visão dialogou diretamente com uma provocação feita por Taiana Jung, segundo ela, talvez o maior erro seja enxergar carreira apenas como função. “Carreira é a contribuição que realizamos para a sociedade por meio do nosso trabalho.” Quando a pergunta deixa de ser “qual cargo quero ocupar?” e passa a ser “que contribuição quero gerar?”, muitas decisões deixam de parecer mudanças radicais e passam a fazer sentido dentro de uma mesma narrativa.

Taiana Jung, foto Paulo Aragon/The Builders Rio

NÃO CARREGAMOS CARGOS, CARREGAMOS COMPETÊNCIAS

Se o primeiro movimento do painel tratou das escolhas, o segundo olhou para aquilo que permanece quando tudo muda. Francine Tavares apresentou uma das reflexões mais provocativas da conversa. “O pesquisador não é o tema da sua tese. É a pessoa que passou pelo processo de produzir aquele conhecimento.” Sua frase resume o trabalho desenvolvido pela Dobra.

Durante anos, Francine percebeu que pesquisadores chegavam ao mercado sendo avaliados apenas pelo tema estudado ou pelo diploma obtido, enquanto suas principais competências, pensamento analítico, investigação, leitura de contexto, formulação de hipóteses, capacidade de aprender problemas complexos, permaneciam invisíveis. O desafio, portanto, não era apenas formar pesquisadores, era aprender a traduzir essas competências para a linguagem do mercado.

Francine Tavares, foto Paulo Aragon/The Builders Rio

A reflexão rapidamente ultrapassou a academia, porque o mesmo acontece com praticamente todas as carreiras. Ao longo da vida, mudamos de empresa, de função, de setor e, muitas vezes, até de profissão. O que permanece não são os cargos, são as capacidades que conseguimos transportar de um território para outro: comunicação, pesquisa, liderança, criatividade, leitura de contexto, articulação e aprendizagem contínua. É esse conjunto que forma aquilo que eu chamo de assinatura profissional.

Taiana Jung, Karina Lima, Francine Tavares e Rô Santiago, foto Paulo Aragon / The Builders Rio

Outro conceito importante surgiu quando Karina diferenciou duas figuras frequentemente confundidas: mentor e sponsor. O mentor é aquele com quem podemos compartilhar dúvidas, vulnerabilidades e dilemas. O sponsor ocupa outro papel, é quem reconhece potencial, abre portas, empresta credibilidade e coloca nosso nome em ambientes aos quais ainda não temos acesso. A distinção parece simples, mas muda completamente a forma como construímos nossas redes de relacionamento. Inovar a carreira também significa compreender quais relações sustentam nosso crescimento em diferentes momentos da trajetória.

O SUCESSO TAMBÉM PRECISA SER ATUALIZADO 

No último bloco, a conversa caminhou para uma pergunta que atravessou todas as experiências presentes no palco. O que significa dar certo? Durante muito tempo, o mercado ensinou respostas relativamente prontas: aquele cargo, aquele salário, aquele reconhecimento, aquele status. Mas as histórias compartilhadas no palco mostraram outra perspectiva. Taiana falou sobre contemplação como prática de autonomia e autoconhecimento, Karina trouxe a importância de alinhar sucesso aos próprios valores e pilares de motivação e Francine mostrou que transformar uma dificuldade pessoal em impacto coletivo pode ser uma forma muito mais potente de realização do que apenas acumular títulos.

Ao sintetizar a conversa, eu compartilhei minha própria definição atual. Pra mim, hoje, o sucesso está menos ligado ao reconhecimento externo e muito mais à possibilidade de escolher projetos, clientes e territórios de atuação. Escolher como utilizar o próprio tempo e escolher o impacto que deseja produzir. Talvez essa seja uma das maiores inovações possíveis para uma carreira.

Taiana Jung, Karina Lima, Francine Tavares e Rô Santiago, foto Paulo Aragon/The Builders Rio

Ao final dos 45 minutos, ficou evidente que o painel nunca foi apenas sobre carreira, foi sobre autoria. Num mundo em que os mapas envelhecem cada vez mais rápido, talvez a vantagem competitiva não esteja em prever o futuro, esteja em desenvolver consciência suficiente para fazer escolhas intencionais enquanto ele acontece. Porque as oportunidades continuarão surgindo de forma imprevisível, mas elas raramente transformam a vida de quem não construiu, antes, as condições para reconhecê-las.

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