Muito além da energia: o que o Energy Summit revelou sobre o futuro da competitividade brasileira

Ao conectar energia, inteligência artificial e desenvolvimento econômico, o Energy Summit aponta os caminhos para a próxima fase da competitividade brasileira.

Durante muito tempo, discutir energia significava falar sobre geração, transmissão e consumo, mas nessa edição do Energy Summit ficou claro que essa conversa mudou de patamar. Ao longo dos painéis, a energia apareceu conectada a temas como inteligência artificial, infraestrutura, desenvolvimento territorial, educação, investimentos, sustentabilidade e competitividade internacional. O encontro voltado ao setor energético revelou uma agenda que começa a reorganizar diferentes áreas da economia em torno de um mesmo objetivo: preparar o Brasil para uma nova fase de desenvolvimento. Talvez esse tenha sido o principal insight deixado pelos debates. A transição energética deixou de ser apenas uma discussão ambiental, ela passou a ser uma estratégia econômica.

O Brasil parte de uma posição privilegiada

Essa percepção apareceu de diferentes formas ao longo da programação.

Em uma das discussões, João Brito Martins, CEO da EDP América do Sul, sintetizou uma provocação poderosa ao afirmar que “o que a Alemanha quer ser em 2040, o Brasil já é hoje”. A frase ajuda a traduzir uma percepção crescente do mercado: poucos países reúnem uma matriz energética tão limpa, disponibilidade de recursos naturais e potencial de expansão como o Brasil.

Ao mesmo tempo, praticamente todas as conversas apontaram para a mesma conclusão, em que termos vantagens competitivas não basta, é preciso criar as condições para transformá-las em investimentos, inovação e desenvolvimento econômico. E isso passa por infraestrutura, previsibilidade regulatória, segurança jurídica, qualificação profissional e capacidade de coordenação entre diferentes atores.

Essa lógica apareceu com clareza no painel Transformação do setor de energia: o papel do M&A e dos investimentos, que reuniu lideranças para discutir o futuro da consolidação do mercado. “O mercado de energia vai continuar crescendo e em consolidação no Brasil. As empresas precisam estar preparadas para que bons M&As possam acontecer e os investimentos continuem fortalecendo o setor”, afirmou Samuel Barros, reitor do Ibmec.

A fala ganha ainda mais significado porque acontece poucos dias depois do anúncio da expansão do Ibmec, instituição fundada em 1970 no Rio de Janeiro, para Fortaleza. O novo campus, confirmado pela Yduqs, representa um investimento de R$ 10 milhões e marca a chegada da instituição ao Nordeste, ampliando sua presença justamente em um momento em que o país demanda novos profissionais para setores ligados à tecnologia, energia e negócios. Não se trata apenas de formar executivos, trata-se de preparar talentos para uma economia que se reorganiza rapidamente.

Inteligência artificial começa a transformar a operação do setor

Outro tema recorrente foi o papel da inteligência artificial. Em vez das discussões mais comuns sobre IA generativa, a tecnologia apareceu aplicada a problemas concretos da indústria. A consultoria BIP apresentou no seu stand o Sigma, plataforma desenvolvida para a Axia Energia que utiliza inteligência artificial para automatizar processos de licenciamento ambiental, consolidar informações regulatórias e transformar uma atividade tradicionalmente manual em um processo mais eficiente, integrado e orientado por dados. O caso mostra uma mudança importante, em que a IA deixa de ser percebida apenas como ferramenta de produtividade individual e passa a atuar como infraestrutura para setores estratégicos da economia.

Da sustentabilidade à regeneração

A discussão sobre futuro também ganhou uma dimensão mais ampla com o lançamento, pela BIP, da edição brasileira do livro Regeneração: O Futuro da Comunidade em um Mundo de Permacrise, escrito por Philip Kotler, Christian Sarkar e Enrico Foglia, Diretor de Sustentabilidade na BIP. A obra propõe uma provocação relevante: talvez a sustentabilidade, sozinha, já não seja suficiente para responder aos desafios atuais. Os autores defendem a regeneração como um novo paradigma, no qual empresas deixam de atuar apenas para reduzir impactos negativos e passam a gerar valor efetivo para comunidades, territórios e ecossistemas. É uma discussão que amplia o papel das empresas dentro da sociedade e dialoga diretamente com temas presentes ao longo do evento.

“O livro também dedica atenção ao perfil do líder regenerativo. Esse tipo de liderança é a de alguém capaz de operar com visão de longo prazo, transparência e proximidade real com as comunidades e os ecossistemas afetados pelas decisões das empresas”, explica Enrico.

Os territórios também competem

Se empresas disputam investimentos, cidades passaram a fazer o mesmo. Maricá aproveitou o Energy Summit para apresentar seus projetos voltados à energia renovável, inovação e mobilidade sustentável, reforçando uma estratégia de posicionamento cada vez mais consistente na agenda da transição energética.

A própria abertura do Energy Summit reforçou uma mensagem que atravessou diferentes painéis do evento: a principal vantagem competitiva do Rio não está apenas em seus recursos naturais, mas na capacidade construída ao longo de décadas para transformar esses recursos em conhecimento, tecnologia e indústria. Ao dar as boas-vindas aos participantes internacionais, o prefeito Eduardo Cavaliere lembrou que quase 90% do petróleo produzido no Brasil é extraído no estado do Rio de Janeiro, mas fez questão de relativizar a ideia de que essa liderança seria apenas resultado da geografia.

“Vários outros países do mundo têm reservas, mas não têm a tecnologia, não têm a indústria, não têm o desenvolvimento de inteligência e de conhecimento que foi produzido aqui”, afirma Eduardo Cavaliere

Segundo o prefeito, a posição ocupada pelo Rio é consequência de décadas de investimentos, planejamento e formação de capital humano. “A riqueza produzida aqui não é fruto do acaso. É fruto de muito esforço, de muito planejamento, de muito trabalho e de muita atração de talentos.”

Essa visão dialoga diretamente com outra frente apresentada durante o evento: a estratégia da Prefeitura do Rio e da Invest.Rio para consolidar a cidade como um polo de energia, inteligência artificial e data centers. No painel Rio: Capital da Energia e da Inteligência Artificial, o presidente da agência, Sidney Levy, reuniu representantes da Google, Elea Data Centers e da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico para discutir como a infraestrutura energética construída ao longo das últimas décadas pode servir de base para um novo ciclo de investimentos em tecnologia.

Osmar Lima, Secretário Municipal de Desenvolvimento Econômico do Rio, Alessandro Lombardi, CEO e fundador da Elea Data Centers, Page Crahan, General Manager Tapestry – Google’s moonshot for electric grid e Sidney Levy, Presidente da Invest.Rio / Foto: Divulgação

Há ainda um simbolismo interessante nessa trajetória, Sidney Levy acompanhou a preparação da Barra Olímpica como CEO dos Jogos Rio 2016. Hoje, lidera as negociações para transformar a mesma região em um dos principais polos de data centers da América Latina, mostrando como uma infraestrutura criada para um megaevento esportivo pode ganhar, uma década depois, um novo propósito e servir de base para uma nova economia construída sobre energia, conectividade e inteligência artificial. Mais do que uma transformação urbana, trata-se de uma mudança de propósito do território.

O que ficou do evento

Ao observar todas essas discussões em conjunto, fica difícil enxergar o Energy Summit apenas como um evento do setor elétrico, porque os temas se cruzam o tempo todo: energia conversa com inteligência artificial, inteligência artificial conversa com educação, educação conversa com investimentos, investimentos dependem de previsibilidade regulatória. E tudo isso passa a influenciar diretamente a capacidade das cidades de atrair empresas, talentos e novos negócios.

Ao observar todas essas discussões em conjunto, fica difícil enxergar o Energy Summit apenas como um evento do setor elétrico, porque os temas se cruzam o tempo todo: energia conversa com inteligência artificial, inteligência artificial conversa com educação, educação conversa com investimentos, investimentos dependem de previsibilidade regulatória. E tudo isso passa a influenciar diretamente a capacidade das cidades de atrair empresas, talentos e novos negócios.

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