Quanto mais a tecnologia elimina o atrito, mais precisamos decidir o que não queremos terceirizar
Em sua segunda edição, o ENTRE reuniu profissionais de pesquisa, criatividade e branding para discutir personas sintéticas, inteligência artificial e um tema que talvez seja ainda maior do que a própria tecnologia: quais experiências continuam precisando ser humanas.
Existe uma diferença entre sair de um evento com um bloco cheio de anotações e sair com perguntas que continuam ecoando dias depois. Foi essa a sensação deixada pela segunda edição do ENTRE, iniciativa criada pela Tiloê (leia-se Tola Faria) e pela Mais Que Isso (leia-se Patrícia Rodrigues), que reuniu, no Quiosque La Carioca, na Praia do Leblon, profissionais de diferentes áreas para discutir um tema cada vez mais presente: personas sintéticas e criatividade analógica: casamento feliz ou divórcio inconciliável?
Os convidados dessa edição foram Bianca Dramali, estrategista em Pesquisa & Consumer Insights, e Rick Yates, diretor criativo e de branding, redator e ator. Mas rapidamente deixou de ser apenas um debate sobre inteligência artificial para se tornar uma reflexão sobre criatividade, pesquisa, comportamento e futuro.

O que mais me chamou atenção não foi apenas o tema, mas a qualidade das discussões. Em um momento em que boa parte dos encontros sobre inteligência artificial gira em torno de produtividade, ferramentas e promessas de eficiência, o ENTRE escolheu outro caminho: discutir aquilo que talvez continue impossível de automatizar. Logo no início da conversa, Bianca lembrou que, apesar do avanço das personas sintéticas, os fundamentos da pesquisa permanecem os mesmos.
Os fundamentos não morrem. A coordenação intelectual e a curadoria dos dados ainda precisam ser feitas por um pesquisador.
A observação parece simples, mas sintetiza uma preocupação importante. A inteligência artificial pode acelerar análises, organizar informações e testar hipóteses, mas continua dependendo de alguém capaz de formular boas perguntas, interpretar contextos e alimentar esses sistemas com realidade. Talvez o futuro da pesquisa não esteja então na substituição do pesquisador, mas na ampliação do seu papel.
Em determinado momento da conversa, surgiu uma provocação especialmente interessante: a inteligência artificial responde cada vez mais rápido, mas continua incapaz de formular hipóteses sobre aquilo que ainda não aconteceu. O “não sei”, tão desconfortável para empresas pressionadas por velocidade, previsibilidade e performance, continua sendo um espaço profundamente humano. É nele que nasce a curiosidade, que novas perguntas aparecem e que caminhos ainda inexistentes começam a ser desenhados. Foi uma reflexão que extrapolou a pesquisa de mercado. Afinal, inovar nunca foi apenas encontrar respostas melhores, inovar também significa permanecer tempo suficiente dentro de uma pergunta antes de correr para a primeira solução disponível.

Outro momento marcante apareceu quando a conversa deixou de discutir tecnologia e passou a discutir comportamento. Se a inteligência artificial aprende olhando para tudo o que já aconteceu, quem continuará produzindo aquilo que ainda não existe? Foi nesse ponto que Rick trouxe uma das reflexões mais interessantes da noite.
O analógico nos dá a possibilidade de errar. E, no erro, transformar alguma coisa em diferenciação.
Em uma época que busca eliminar qualquer tipo de atrito, o erro apareceu ali como parte indispensável do processo criativo, porque o improviso, a tentativa, a dúvida e a experimentação continuam produzindo repertórios que nenhum modelo consegue antecipar. Rick também chamou atenção para outra questão importante: a inteligência artificial continua sendo um instrumento, não o destino final do processo criativo. Quanto mais eficiente ela se torna em organizar repertórios já existentes, maior parece ser o valor daquilo que nasce especificamente da experiência humana, da memória, da emoção e das referências que ainda não foram transformadas em dados.
Em outras palavras, talvez o desafio deixe de ser produzir mais conteúdo e passe a ser produzir experiências capazes de gerar repertório novo. Afinal, toda inteligência artificial aprende olhando para trás e quem continua olhando para frente somos nós.

Ao longo da noite, outra ideia foi surgindo quase naturalmente: talvez estejamos confundindo facilitar com melhorar. Ferramentas conseguem escrever e-mails, resumir reuniões, sugerir estratégias e produzir apresentações em poucos segundos. Mas será que elas também constroem confiança? Será que elas substituem a conversa que acontece depois da palestra? A ideia que surge durante um café? A pergunta inesperada que muda completamente um raciocínio?
O atrito, muitas vezes tratado como problema, apareceu durante a conversa como parte importante da própria experiência humana, ao entendermos que nem tudo que pode ser automatizado necessariamente deveria ser.

Foi curioso perceber que essa discussão acontecia justamente ao ar livre, em pleno inverno carioca, com pessoas de casaco, sentadas em cadeiras de praia, olhando para o mar do Leblon. O cenário parecia reforçar silenciosamente a própria tese da conversa, em que quanto mais digital se torna o trabalho, mais valor passam a ter experiências presenciais capazes de gerar repertório, conexões e pensamento coletivo. Talvez por isso o maior mérito do ENTRE não esteja apenas no tema escolhido, esteja na qualidade das perguntas que consegue colocar sobre a mesa.

Saí do encontro com a sensação de que aquele foi um tempo muito bem investido. Não apenas pelas ideias discutidas, mas pelas pessoas reunidas ali. Conheci profissionais que provavelmente não cruzariam espontaneamente meu caminho em outros contextos e participei de uma conversa que continuará reverberando por bastante tempo. Existe uma diferença importante entre consumir conteúdo e participar de uma boa conversa. O conteúdo pode ser resumido, transcrito e reorganizado por qualquer ferramenta. Uma conversa realmente boa continua reverberando dias depois, porque não entrega apenas respostas: reorganiza a maneira como olhamos para determinados assuntos.
Talvez seja justamente esse o espaço que comunidades como o ENTRE começam a ocupar. Em vez de disputar atenção pelo volume de informação, criam ambientes onde pessoas com repertórios diferentes conseguem pensar juntas. E isso, paradoxalmente, parece ganhar ainda mais valor justamente na era da inteligência artificial.
Se essa for a direção dos próximos encontros, não estaremos acompanhando apenas o nascimento de mais uma comunidade. Estaremos vendo surgir um espaço dedicado a algo que talvez se torne cada vez mais escasso: tempo de qualidade para pensar, discordar, construir repertório e fazer perguntas melhores. Porque quanto mais a tecnologia elimina o atrito, mais precisamos decidir quais experiências ainda queremos viver e quais delas simplesmente não fazem sentido terceirizar.
