O que uma garrafa de cachaça pode ensinar sobre desenvolvimento territorial
A exposição O Brasil na Garrafa, na Casa Firjan, abre uma conversa que vai muito além da bebida. Ela ajuda a entender como patrimônio cultural, propriedade intelectual e organização produtiva podem se transformar em estratégia de desenvolvimento para um território.
É curioso perceber como algumas discussões aparecem onde menos se espera, ontem, 16, fui à abertura da exposição O Brasil na Garrafa: Cachaça, Identidade, Cultura e Tecnologia, realizada pela Firjan SESI e pela Associação dos Produtores de Cachaça do Estado do RIo de Janeiro – Apacerj, na Casa Firjan, imaginando encontrar uma boa narrativa sobre um dos produtos mais simbólicos do país. Encontrei isso, mas saí de lá pensando em desenvolvimento territorial.
A exposição acompanha a trajetória da cachaça por diferentes caminhos, ela fala da história da bebida, do seu processo produtivo, da relação com a gastronomia, com a música, com a literatura, com a religiosidade, com a coquetelaria, com o protagonismo feminino e com a indústria. Aos poucos, essas camadas começam a se conectar e a bebida passa a revelar uma discussão maior: como um território organiza, protege e comunica aquilo que produz. Foi justamente essa a leitura proposta pela gerente de Conteúdo e Inovação da Casa Firjan, Maria Isabel Oschery, durante a abertura da mostra.
Nosso enfoque ao desenvolver a narrativa expográfica foi provocar uma visão da cachaça que transcende a ideia de bebida alcoólica, permitindo a qualquer visitante compreender esse destilado como um patrimônio histórico, material e imaterial.

Essa escolha aparece o tempo todo na exposição, porque ao invés de separar cultura, indústria, tecnologia e inovação em assuntos diferentes, a narrativa aproxima essas dimensões e mostra como elas dependem umas das outras. O visitante deixa de olhar para a cachaça apenas como um produto e começa a enxergá-la como resultado de uma cadeia produtiva complexa. Essa mudança de perspectiva ajuda a entender um conceito que ainda aparece pouco nas discussões sobre desenvolvimento regional: a Indicação Geográfica.
Apesar do nome técnico, a lógica é bastante simples. A Indicação Geográfica é um instrumento de propriedade intelectual concedido pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) para reconhecer produtos ou serviços cuja reputação, qualidade ou características estejam diretamente ligadas ao território onde são produzidos. O sistema brasileiro trabalha com duas modalidades. A Indicação de Procedência reconhece regiões que se tornaram conhecidas pela produção de determinado produto ou serviço. Já a Denominação de Origem exige uma relação ainda mais estreita entre o território e aquilo que é produzido, demonstrando que fatores naturais e humanos, como clima, solo, relevo, técnicas produtivas e conhecimento tradicional, influenciam diretamente suas características.

Na prática, isso significa que a origem deixa de ser apenas uma informação no rótulo, ela passa a integrar o próprio valor do produto. Conquistar uma Indicação Geográfica também está longe de ser um processo burocrático. Ela exige que produtores se organizem coletivamente, estabeleçam padrões de qualidade, criem mecanismos de governança, definam critérios de controle e construam uma reputação compartilhada. Não basta produzir em determinada região, é preciso demonstrar por que aquele território faz diferença no resultado final.
Champagne, Presunto de Parma, Parmigiano Reggiano e os vinhos do Porto talvez sejam os exemplos mais conhecidos internacionalmente. No Brasil, esse movimento vem ganhando força com produtos como os cafés do Cerrado Mineiro, o Queijo Canastra, os vinhos do Vale dos Vinhedos, o cacau do Sul da Bahia e diversas outras cadeias produtivas. A cachaça faz parte desse grupo.
O próprio nome “cachaça” possui proteção legal e só pode ser utilizado para bebidas produzidas no Brasil de acordo com os critérios estabelecidos pela legislação nacional. Algumas regiões deram um passo além. Paraty, por exemplo, conquistou a Denominação de Origem, reconhecendo oficialmente a relação entre o território, o saber-fazer local e as características da bebida produzida ali. Esse reconhecimento produz efeitos que vão muito além do mercado de destilados, fortalecendo pequenos produtores, estimulando investimentos em qualidade, ampliando oportunidades de exportação, movimentando o turismo, incentivando experiências gastronômicas e ajudando a construir uma identidade territorial consistente.


OS NÚMEROS AJUDAM A ENTENDER A DIMENSÃO DESSA INDÚSTRIA
Dados do Ministério da Agricultura publicados em 2025 mostram que o Brasil possui 1.266 estabelecimentos produtores de cachaça registrados e 9.532 marcas. Cerca de 65,4% das destilarias estão concentradas na Região Sudeste, que reúne 501 produtores em Minas Gerais, 179 em São Paulo, 81 no Espírito Santo e 67 no estado do Rio de Janeiro. É nesse contexto que a produção fluminense ganha relevância, ao longo dos últimos anos, o estado consolidou uma reputação crescente na produção de cachaças premium, reunindo alambiques premiados no Brasil e no exterior e fortalecendo uma cadeia que conecta agricultura, indústria, pesquisa, turismo, gastronomia e economia criativa.
Durante a abertura da exposição, a presidente da Apacerj, Kátia Espírito Santo, reforçou essa visão ao lembrar que as cachaças produzidas no Rio vêm conquistando reconhecimento internacional.

A fala dialoga com outro aspecto interessante da exposição: a valorização da produção fluminense como parte de uma estratégia de posicionamento do estado. Ao reunir história, indústria, design, tecnologia e patrimônio em uma mesma narrativa, a mostra evidencia que desenvolvimento territorial também passa pela capacidade de reconhecer e comunicar aquilo que cada lugar produz de forma singular.

A exposição termina mostrando os processos produtivos da cachaça. Os equipamentos, as etapas de produção, os controles de qualidade e a pesquisa aparecem com o mesmo peso dado à cultura, à música, à gastronomia e à história. E essa escolha diz bastante sobre a própria cadeia da cachaça, ela não existe separada da indústria, do turismo, da cultura e da propriedade intelectual. Cada uma dessas dimensões ajuda a sustentar a outra e aoo longo da visita, essa conexão vai ficando evidente. A Indicação Geográfica aparece então como uma das ferramentas capazes de organizar essa cadeia, estabelecer padrões, fortalecer a reputação coletiva dos produtores e proteger um patrimônio que levou décadas, em muitos casos, séculos, para ser construído.
Quando você chega ao final da exposição, fica difícil olhar para uma garrafa de cachaça do mesmo jeito.
Serviço
O Brasil na Garrafa: Cachaça, Identidade, Cultura e Tecnologia
Casa Firjan – Botafogo, Rio de Janeiro
17 de julho a 4 de outubro de 2026
Entrada gratuita
