Niterói fortalece sua estratégia de inovação ao conectar dados, talentos e tecnologias emergentes
11º Café do AldeiaTech mostra a maturidade do ecossistema local ao reunir lideranças de mercado, representantes da IBM, NVIDIA e TI Rio em torno de uma mesma agenda: transformar conhecimento em desenvolvimento econômico.
Há alguns anos, discutir inovação em Niterói significava falar sobre potencial. Hoje, a conversa começa a migrar para outro estágio: o da capacidade de coordenação. Foi esse o principal sinal deixado pelo 11º Café da AldeiaTech, realizado no Solar Notre Rêve. Além de apresentar tendências tecnológicas, o encontro evidenciou como a cidade vem estruturando uma governança capaz de conectar universidades, empresas, poder público e sociedade civil em torno de uma estratégia de longo prazo.
Na abertura do evento, Valéria Braga, fundadora da AldeiaTech, recuperou a trajetória do movimento desde sua origem, quando ainda fazia parte de um programa da Prefeitura de Niterói voltado ao fortalecimento do ecossistema local de inovação. Segundo ela, o processo levou rapidamente a uma conclusão importante: antes de discutir a implantação de um parque tecnológico, era necessário consolidar a própria comunidade de inovação da cidade.
Foi desse entendimento que nasceram iniciativas como o Pacto pela Inovação, a construção de uma governança baseada na chamada quádrupla hélice, integrando governo, universidades, empresas e sociedade civil, e, posteriormente, a formalização da Aldeia Tech como associação independente. Ao longo desse percurso, a organização passou a contribuir para políticas públicas municipais, participou da construção de instrumentos como o sandbox regulatório e políticas de contratação de startups, ampliou sua atuação para redes estaduais e nacionais e passou a representar Niterói em iniciativas internacionais como a Global StartupCities, da qual a cidade hoje integra a governança para as Américas.
A evolução institucional ajuda a explicar uma mudança importante de papel. A AldeiaTech deixa de atuar apenas como promotora de encontros para assumir uma função permanente de articulação do ecossistema.
Durante o evento, Alberto Blois, presidente do TI Rio, trouxe uma discussão complementar: desenvolvimento econômico exige inteligência territorial. Sua apresentação girou em torno do mapeamento do setor de tecnologia do estado do Rio de Janeiro, iniciativa conduzida pelo TI Rio para construir uma base permanente de informações sobre empresas, talentos e especialidades regionais. Para Alberto, decisões estratégicas precisam deixar de ser guiadas por percepções e passar a ser sustentadas por evidências.
“O poder público, os investidores e as próprias empresas precisam trabalhar com dados consistentes. Não é mais possível planejar políticas de desenvolvimento baseadas no ‘eu acho'”, defendeu.
Na prática, esse tipo de inteligência permite identificar vocações econômicas, orientar investimentos públicos, apoiar processos de internacionalização e oferecer maior previsibilidade para empresas interessadas em expandir operações.
Alberto também destacou um dos principais ativos competitivos do estado: a capacidade de formação de capital humano. Segundo ele, o Rio de Janeiro continua sendo um dos maiores formadores de engenheiros, mestres e doutores do país, um diferencial que precisa ser utilizado como argumento estratégico na atração de investimentos de base tecnológica.
Outro ponto enfatizado foi a necessidade de fortalecer a integração entre os diferentes polos de inovação fluminenses. Em vez de concentrar esforços apenas na capital, a estratégia passa por reconhecer o potencial de cidades como Niterói, Petrópolis, Campos, Volta Redonda, Três Rios e Nova Friburgo como parte de um mesmo sistema de inovação.
A COMPUTAÇÃO QUÂNTICA COMEÇA A SAIR DOS LABORATÓRIOS
Representando a IBM, Alexandre Pfeifer, Quantum Business Leader para a América Latina, apresentou um panorama sobre o estágio atual da computação quântica e explicou por que ela começa a deixar de ser apenas um tema de pesquisa para se aproximar de aplicações concretas. Segundo Pfeifer, o avanço recente da tecnologia permitiu atingir aquilo que a IBM chama de vantagem quântica: situações em que computadores quânticos passam a resolver determinados problemas de forma mais eficiente do que arquiteturas tradicionais. As aplicações vão desde descoberta de novos materiais e desenvolvimento de medicamentos até otimização financeira, sistemas energéticos e modelos avançados de inteligência artificial.
Nesse contexto, Pfeifer destacou a criação do Centro de Computação Quântica no Distrito de Inovação da Cantareira, em Niterói, iniciativa que busca posicionar a cidade como um dos polos latino-americanos dedicados à pesquisa e ao desenvolvimento dessa nova geração de tecnologias. Para ele, a consolidação de um centro dessa natureza depende menos da infraestrutura física e mais da formação de uma comunidade capaz de produzir conhecimento, desenvolver aplicações e criar empresas especializadas.
A INFRAESTRUTURA DA PRÓXIMA GERAÇÃO DE IA
Enquanto a IBM apresentou o horizonte tecnológico da computação quântica, Alaor Neto, Account Manager Energy da NVIDIA, concentrou sua apresentação na infraestrutura que sustenta a atual revolução da inteligência artificial. Segundo ele, a IA generativa alterou profundamente a lógica da computação tradicional. O desafio deixou de ser apenas desenvolver modelos cada vez mais sofisticados e passou a envolver capacidade computacional, arquitetura de dados, redes de alta performance e novos modelos de desenvolvimento de software.
Ao longo da apresentação, Alaor mostrou como agentes inteligentes, modelos abertos, pequenas inteligências especializadas (Small Language Models) e robótica começam a compor um mesmo ecossistema tecnológico. Para ele, o próximo ciclo será marcado pela expansão da chamada IA física, com agentes autônomos e robôs capazes de interagir continuamente com o ambiente.
Apesar do avanço acelerado dessas tecnologias, Alaor fez questão de relativizar uma das preocupações mais recorrentes sobre inteligência artificial: a substituição das pessoas. Na sua visão, a IA tende a automatizar tarefas, enquanto o diferencial competitivo continuará sendo a capacidade humana de formular problemas, tomar decisões e construir contexto.
Embora tenham abordado temas distintos, governança, inteligência territorial, computação quântica e inteligência artificial, as apresentações convergiram para uma mesma ideia: o desenvolvimento de um ecossistema de inovação não depende apenas da presença de empresas ou da adoção de tecnologias emergentes. Ele exige coordenação institucional, produção de conhecimento, circulação de talentos e capacidade de transformar informação em decisões estratégicas. Para mim, o principal sinal deixado pelo 11º Café da AldeiaTech é que Niterói começou a estruturar os mecanismos que permitem participar delas de forma ativa, conectando pesquisa, mercado, políticas públicas e empreendedorismo em uma estratégia comum de desenvolvimento.
