O Rio já sabia, agora os números confirmam: somos a segunda capital brasileira com mais empresas criativas

Novo estudo mostra que a indústria criativa movimenta R$ 41 bilhões por ano na capital fluminense e se consolida como um dos principais ativos para o futuro da cidade.

O novo Mapeamento da Indústria Criativa do Município do Rio de Janeiro, desenvolvido pela Prefeitura do Rio e a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico, em parceria com a Firjan SENAI, conseguiu medir aquilo que a cidade já vinha demonstrando há muito tempo. Para quem vive o Rio, especialmente para quem trabalha com cultura, inovação, tecnologia, turismo, comunicação ou empreendedorismo, dificilmente os números surpreendem. Eles apenas materializam algo que já fazia parte da experiência cotidiana da cidade.

A indústria criativa movimenta cerca de R$ 41 bilhões por ano, representa aproximadamente 8% do PIB carioca, reúne 5.245 empresas, emprega quase 100 mil trabalhadores formais e conta com aproximadamente 98 mil microempreendedores individuais. Sozinha, responde por quase R$ 1 bilhão em arrecadação anual de ISS. Os números impressionam sim, mas talvez a informação mais importante do estudo não seja nenhuma delas. É o fato de que, pela primeira vez, existe uma fotografia consistente desse ecossistema.

Durante muito tempo, a criatividade foi tratada como uma característica quase folclórica do Rio de Janeiro. Algo associado ao estilo de vida, à cultura, ao carnaval, às praias ou ao jeito carioca de criar. Agora ela passa a ocupar outro lugar, o da estratégia de desenvolvimento.

Quando se fala em indústria criativa, ainda é comum imaginar artistas, produtores culturais ou grandes eventos, mas basta olhar com atenção para a cidade para perceber que ela atravessa praticamente toda a economia. Ela está nas semanas de moda e nas marcas cariocas que hoje exportam identidade brasileira para o mundo. Está na produção audiovisual, na publicidade, na arquitetura, na gastronomia, na música, nos festivais, na tecnologia, no design, no turismo, na arte, nos estúdios criativos, nas startups. E também em milhares de empresas que sequer se definem como criativas, mas cuja competitividade depende diariamente de branding, comunicação, design, inovação e produção de conteúdo. A criatividade deixou então de ser apenas um segmento econômico, ela passou a ser uma competência transversal da cidade.

A ECONOMIA INVISÍVEL DOS GRANDES EVENTOS 

Talvez o melhor exemplo dessa força esteja justamente nos grandes eventos. Quando Madonna reuniu milhões de pessoas em Copacabana em 2024, boa parte da discussão pública ficou concentrada no impacto sobre hotéis, restaurantes e turismo, mas quem trabalha na economia criativa enxergou outra cidade funcionando. Praticamente todos os profissionais de audiovisual que conheço estavam trabalhando naquele fim de semana. Uns acompanhando artistas, outros produzindo conteúdo para marcas, outros registrando bastidores, outros operando ativações.

Foto: Alexandre Macieira / Riotur

Fotógrafos, videomakers, designers, produtores, social medias, recepcionistas, montadores, empresas de cenografia, segurança, buffets, transportes. Uma cadeia enorme de profissionais que, muitas vezes, sequer aparece quando falamos sobre economia criativa. E esse talvez seja um dos pontos mais interessantes do estudo. Ele mede o núcleo desse setor, mas existe uma segunda camada, formada por milhares de fornecedores e prestadores de serviço, que cresce junto, gera renda, movimenta negócios e alimenta uma economia muito maior do que aquela que aparece nas estatísticas.

CRIATIVIDADE TAMBÉM É POLÍTICA ECONÔMICA

Talvez seja justamente por isso que o estudo dedique tanta atenção ao território. Centro, Barra da Tijuca, Botafogo, Jacarepaguá e Região Portuária concentram boa parte dos empregos da economia criativa, não por acaso. São lugares onde empresas, universidades, equipamentos culturais, centros de inovação, empreendedores e investidores convivem diariamente, essa proximidade cria conexões e essas conexões produzem inovação.

O próprio levantamento destaca a Região Portuária como um dos principais exemplos desse processo, relacionando sua especialização criativa ao movimento recente de revitalização econômica e à consolidação do Porto Maravalley como polo de inovação, tecnologia e empreendedorismo. É uma mudança importante de perspectiva, porque durante muito tempo, planejamento urbano significava construir ruas, prédios e infraestrutura. Hoje, significa também criar ambientes capazes de atrair talentos, estimular encontros e acelerar a circulação de conhecimento.

“A cultura tem papel estratégico no desenvolvimento do Rio de Janeiro, tanto na valorização da identidade da cidade quanto na geração de oportunidades, ocupação urbana e dinamização da economia. Projetos como o Reviver Cultural, a Semana de Artes do Rio, os novos editais de fomento e a Biblioteca dos Saberes reforçam o compromisso da Prefeitura em ampliar o acesso à cultura, fortalecer a rede cultural carioca e transformar o Centro em um polo cada vez mais vivo, criativo e conectado com a população”, afirma o secretário municipal de Cultura do Rio, Lucas Padilha.

Foto: Rafael Catarcione

É importante salientar que o Rio exporta muito mais do que paisagens, já que existe uma tendência de associar a economia do Rio apenas ao turismo, mas a cidade exporta muito mais do que cartões-postais. Exporta linguagem, comportamento, formatos, marcas e experiências. Boa parte das empresas que hoje ajudam a construir a identidade contemporânea do Brasil nasceu aqui. Da moda ao audiovisual, da música aos festivais, da publicidade à economia digital. O Rio sempre funcionou como um laboratório onde novas ideias são testadas antes de ganhar o restante do país. E essa capacidade de experimentar talvez seja um dos seus maiores diferenciais competitivos.

“As discussões de economia criativa também se aproximam do planejamento urbano, no que se refere às estratégias de revitalização e à formação de polos e distritos criativos. Essa interrelação entre criatividade, desenvolvimento urbano e crescimento econômico ganha contornos concretos no município. A cidade reúne densidade produtiva criativa, diversidade cultural, visibilidade internacional e um conjunto de projetos estruturantes capazes de reorganizar fluxos, atrair investimentos e criar centralidades econômicas. O exemplo mais evidente é a região do Porto Maravilha”, afirma a consultora em Ambientes de Inovação da Casa Firjan e uma das responsáveis pelo Mapeamento, Julia Zardo.

A partir desse mapeamento, é possível enxergar que ele não cria uma cidade criativa, ele torna visível uma cidade que sempre foi criativa e isso faz toda a diferença. Porque quando a criatividade deixa de ser apenas percepção e passa a ser indicador econômico, ela muda de lugar na mesa de decisão. Ela passa a orientar políticas públicas, a atrair investimentos e a fortalecer estratégias de desenvolvimento. E ajuda a cidade a compreender que um de seus maiores ativos não está apenas em sua paisagem ou em sua história. Está na capacidade de transformar diversidade, encontros e cultura em inovação, negócios e desenvolvimento.

O Rio sempre soube disso. Agora, finalmente, os números também sabem.

O estudo completo está disponível no Observatório Econômico, no link: observatorioeconomico.rio/ou no Observatório Firjan: observatorio.firjan.com.br/.

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