A cidade que esquece sua história também perde a capacidade de imaginar o futuro.

Ao lançar uma nova identidade visual, um novo site com inteligência artificial e a galeria “Rio na Moda”, o Rio Memórias mostra que preservar patrimônio talvez seja apenas o primeiro passo. O desafio agora é transformar memória em pertencimento.

O Rio de Janeiro produz símbolos em uma velocidade impressionante, modos de vestir, expressões, ritmos, imagens, comportamentos e personagens nascem na cidade e circulam pelo país (e também fora dele). Alguns atravessam gerações e outros desaparecem antes mesmo de serem reconhecidos como parte da nossa história. Quando uma cidade perde essas referências, não perde somente registros do passado. Perde repertório para compreender o presente, reconhecer quem participou de sua construção e decidir quais histórias deseja levar adiante.

Tive essa reflexão quando acompanhei a celebração dos sete anos do Rio Memórias, na última quinta, 23, realizada no Mercado Central RJ no centro da cidade. A noite reuniu três lançamentos: uma nova identidade visual, a reformulação do site e a abertura da galeria virtual “Rio na Moda”.

O Rio Memórias nasceu em 2019 como um museu virtual voltado à preservação e à difusão de histórias da cidade. Hoje, articula pesquisa, educação, cultura, tecnologia e ações presenciais. Seu acervo reúne histórias conhecidas e outras que foram silenciadas, apagadas ou mantidas fora dos registros oficiais. A mudança de marca reconhece esse percurso e precisava acompanhar o movimento da cidade.

A identidade anterior foi criada para representar um museu virtual organizado em galerias e recortes específicos da história do Rio. Sete anos depois, o projeto reúne um acervo amplo, ações educativas, parcerias institucionais e projetos desenvolvidos dentro e fora do ambiente digital. Durante a apresentação da nova marca, a equipe explicou que o Rio Memórias passou a se perceber como um agente cultural da cidade. A linguagem visual precisava então expressar proximidade, circulação e movimento.

As curvas do novo símbolo remetem às diferentes formas do Rio com uma paleta que abandona uma aparência excessivamente institucional e se aproxima da energia encontrada nas ruas, nas paisagens e nas manifestações culturais cariocas. A marca deixa de funcionar como moldura para um conjunto de arquivos, passando a traduzir uma organização que circula pela cidade, encontra pessoas e ajuda a tornar visíveis histórias que não receberam a mesma atenção dos registros tradicionais.

TECNOLOGIA PARA AMPLIAR O ACESSO À MEMÓRIA

O Rio Memórias chegou aos sete anos com cerca de 700 mil visitas ao site e sete mil estudantes impactados por suas atividades educativas, segundo os números apresentados durante o evento. O crescimento da audiência ocorre em um momento no qual as buscas na internet passam por uma transformação profunda. Plataformas de inteligência artificial frequentemente entregam respostas prontas, reduzindo a necessidade de acesso direto às páginas onde as informações foram produzidas. O movimento do Rio Memórias tem sido diferente e seu número de visitantes continua crescendo.

Esse dado ajuda a compreender a importância da reformulação do site, onde a plataforma ganhou uma nova organização de conteúdo, navegação mais acessível e recursos de inteligência artificial destinados a potencializar as buscas no acervo. A tecnologia não aparece para substituir o trabalho de pesquisa, mas sim ajuda o público a chegar até ele. Ao tornar mais simples o acesso às histórias, o site amplia a possibilidade de estudantes, professores, pesquisadores e moradores da cidade encontrarem relações entre personagens, acontecimentos, territórios e experiências. A memória então deixa de ocupar uma posição passiva, armazenada à espera de alguém que já saiba o que procura, ela passa a participar da formação de novas perguntas.

A MODA COMO DOCUMENTO DA CIDADE

A nova galeria “Rio na Moda”, com curadoria da pesquisadora, escritora e figurinista Carolina Casarin, ajuda a materializar essa proposta. A exposição percorre a história da moda carioca desde os povos originários que habitavam o território até as manifestações contemporâneas. Em vez de organizar o conteúdo apenas por uma sequência cronológica, a galeria cruza períodos, temas, corpos, práticas sociais e modos de ocupar a cidade.

A moda surge como fonte histórica e as roupas revelam regras sociais, diferenças de classe, disputas de poder, transformações urbanas, referências culturais e estratégias de sobrevivência. “A moda carioca tem história. A moda carioca tem ancestralidade”, afirmou Carolina durante a apresentação. A exposição questiona, por exemplo, a ideia de que os povos originários viviam simplesmente “nus”. Pinturas corporais, adornos e formas de composição visual constituíam sistemas sofisticados de identidade, distinção e pertencimento.

Também recupera a participação de mulheres negras, livres, libertas ou escravizadas, na construção das aparências do Rio colonial. Tecidos, turbantes, saias, joias e amarrações formavam linguagens visuais que durante muito tempo ficaram fora das narrativas tradicionais da moda brasileira. Isso demonstra que a história da moda carioca não foi construída somente a partir das referências europeias assimiladas pelas elites. Ela também nasceu dos conhecimentos indígenas, dos saberes africanos, do trabalho das costureiras, das ruas comerciais do Centro, das fábricas, das festas populares, das praias, dos subúrbios e das soluções criadas por quem precisou inventar com os recursos que tinha.

Um dos destaques da galeria é a trajetória de Hugo Rocha, costureiro negro que ocupou uma posição relevante na moda carioca entre as décadas de 1960 e 1970. Rocha atuou na alta-costura, vestiu personalidades como Elza Soares e desenvolveu uma produção importante em um período de consolidação da moda brasileira. Mesmo assim, seu nome praticamente desapareceu da historiografia, recuperá-lo não significa acrescentar uma curiosidade a um arquivo, significa revisar a maneira como a história foi organizada.

Todo acervo resulta de escolhas: quem merece ser registrado, quais obras devem ser preservadas, que experiências recebem valor histórico e quem permanece fora do enquadramento. Ao trazer Hugo Rocha para o centro da galeria, o Rio Memórias revela que alguns esquecimentos não acontecem por acaso. Eles refletem desigualdades presentes na própria produção dos registros.

O debate de lançamento reuniu Carolina Casarin e as estilistas Lígia Parreira, fundadora da Devassas, e Isabela Capeto. As duas construíram marcas autorais profundamente ligadas ao Rio de Janeiro, embora partam de repertórios e experiências diferentes

Lígia falou da ausência de pessoas negras na publicidade, nas campanhas e nas referências de moda que encontrou no início da carreira. Sua criação nasceu da necessidade de ocupar esse espaço e apresentar outros corpos, territórios e imaginários. Madureira, o carnaval, as festas populares, as religiões de matriz africana e a cultura urbana entram em seu trabalho como parte de uma experiência vivida.

“Antes, a minha pergunta era: onde estão os modelos negros? Hoje, eu pergunto: onde estão os criadores negros e onde estão as nossas memórias?” – Lígia Parreira

Isabela Capeto descreveu uma relação cotidiana com a cidade. Plantas encontradas nas ruas, materiais reaproveitados, técnicas manuais e a passagem pela antiga Fábrica Bangu ajudaram a formar sua linguagem. Em sua trajetória, a sustentabilidade nunca esteve separada das condições de trabalho, do tempo de produção e da preservação dos saberes artesanais.

“O Rio me inspira o tempo todo. As ruas, as pessoas… Já fiz coleção sobre o Jardim Botânico. A cidade está presente o tempo inteiro no meu processo de criação” – Isabela Capeto

As falas das duas estilistas mostraram que a moda carioca não cabe em uma única imagem, ela atravessa a Zona Norte e a Zona Sul, o ateliê e a fábrica, o luxo e a improvisação, a tradição e a experimentação. Está nas marcas reconhecidas e também nas práticas de quem nunca recebeu o título de criador.

Durante o debate, Carolina Casarin apresentou uma ideia que ajuda a compreender a relevância de todo o projeto: “A gente fala do passado para iluminar o presente.” A memória, nesse contexto, não funciona como saudade de uma cidade que deixou de existir, ela oferece vocabulário para interpretar a cidade que existe agora. Quando conhecemos os profissionais, as técnicas, os movimentos culturais e as disputas que formaram a moda carioca, ganhamos critérios para valorizar quem continua criando. Também passamos a identificar os apagamentos que ainda se repetem.

Preservar roupas, fotografias, documentos e relatos exige investimento, pesquisa e políticas públicas. Sem esse trabalho, parte da produção cultural desaparece e as gerações seguintes precisam reconstruir, do zero, histórias que já deveriam estar disponíveis. Uma cidade sem memória fica presa a uma sucessão de novidades, onde tudo parece começar hoje porque ninguém consegue acessar o que veio antes.

O FUTURO PRECISA DE REFERÊNCIAS

A nova fase do Rio Memórias apresenta uma questão importante para quem discute cidades, cultura e inovação. Construir o futuro não depende apenas de acompanhar tendências, adotar tecnologias ou criar novos projetos. Depende da capacidade de reconhecer o território sobre o qual estamos construindo. O Rio de Janeiro possui uma história extensa, complexa e frequentemente disputada, onde nem todas as experiências receberam o mesmo espaço, nem todos os personagens foram preservados e nem todos os territórios tiveram seus saberes reconhecidos.

O trabalho da memória exige pesquisa, mas também exige escolha. Escolher olhar novamente, escolher ampliar o enquadramento e escolher devolver à cidade as histórias que ajudam seus moradores a compreender quem são.

Ao renovar sua marca, seu site e uma parte importante de seu acervo, o Rio Memórias apresenta uma organização preparada para essa tarefa. A cidade que conhece sua história ganha repertório para tomar decisões, reconhecer seus criadores e imaginar outros caminhos. A cidade que a esquece corre o risco de chamar de futuro apenas aquilo que já viveu, mas não conseguiu lembrar.

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