O Rio não precisa descobrir novas vocações, precisa remover os obstáculos das que já possui.
Estudo da Firjan estima que gargalos estruturais retiram R$ 274,8 bilhões por ano da economia fluminense. A discussão não é mais sobre falta de potencial, mas sim sobre competitividade.
O Rio de Janeiro não sofre com a falta de potencial, afinal poucos estados concentram uma combinação tão ampla de ativos econômicos. O estado reúne universidades de excelência, infraestrutura logística, capacidade energética, um mercado consumidor robusto e lidera setores como petróleo e gás, economia criativa, turismo e serviços especializados.
Nos últimos anos, esse repertório ganhou novas camadas. A economia do mar passou a ocupar espaço nas estratégias de desenvolvimento. O ecossistema de inovação amadureceu. A agenda climática abriu novas oportunidades. Centros de pesquisa, startups e grandes empresas voltaram a dividir a mesma conversa.
O mapa de oportunidades está desenhado, o que continua pesando é o ambiente onde essas oportunidades precisam acontecer. O estudo Custo Rio, produzido pela Firjan, estima que os entraves estruturais da economia fluminense representam R$ 274,8 bilhões por ano, valor equivalente a 20,2% do Produto Interno Bruto estadual. O levantamento organiza esse impacto em seis eixos: financiamento, capital humano, infraestrutura, ambiente jurídico-regulatório, tributação e segurança pública. São dezoito indicadores construídos a partir de bases oficiais e comparados com referências internacionais da OCDE. A fotografia é conhecida por quem empreende no estado, a novidade está em transformar percepções em medida econômica.
COMPETITIVIDADE TAMBÉM SE CONSTRÓI ELIMINANDO ATRITOS
Empresas escolhem cidades por muitos motivos: talento pesa, infraestrutura pesa, o mercado consumidor pesa. Mas a previsibilidade também pesa. Uma sentença judicial em primeira instância leva, em média, 817 dias para ser concluída no Rio de Janeiro. Nos países da OCDE, a média é de 282 dias. Estados vizinhos, como Minas Gerais e Espírito Santo, apresentam tempos menores.
A diferença não aparece apenas nas estatísticas do Judiciário, ela aparece no investimento que espera, no contrato que permanece aberto, no crédito que fica mais caro e na decisão que deixa de ser tomada. O mesmo acontece com a burocracia regulatória. Segundo a Firjan, 18,2% da economia fluminense está concentrada em setores sujeitos a maior intensidade regulatória. O custo estimado desse ambiente chega a R$ 15 bilhões por ano.
Nenhuma empresa decide investir apenas porque uma cidade oferece incentivos, ela investe quando consegue projetar prazo, custo e risco com algum grau de segurança, porque crescer custa menos quando o ambiente ajuda.
Existe uma tendência de associar competitividade apenas à atração de novos negócios e o estudo nos lembra que competitividade também depende da capacidade de preservar os negócios que já existem, acelerar quem já produz e criar condições para que investimentos amadureçam com menos fricção. Essa lógica muda a forma de olhar para o desenvolvimento econômico, porque ao invés de procurar permanentemente a próxima grande vocação do estado, vale perguntar quanto crescimento já está disponível e permanece represado por obstáculos que podem ser enfrentados.
Infraestrutura, segurança jurídica, simplificação regulatória, formação de mão de obra e acesso a crédito deixam de ser temas paralelos e passaram a fazer parte da mesma agenda. O desenvolvimento também é uma decisão de gestão e o Rio não precisa convencer ninguém de que possui talento, criatividade ou capacidade empreendedora. Os ativos estão distribuídos pelo estado há décadas, o desafio agora está em transformar essas vantagens em um ambiente mais eficiente para quem decide empreender, investir e produzir.
Cidades competitivas não são apenas aquelas que criam oportunidades, são aquelas que conseguem remover os atritos que impedem essas oportunidades de acontecer.
