Quem ainda pensa que economia do mar é só porto e petróleo está olhando para o problema errado
No Conecta Delas, lideranças do setor público, da indústria e da inovação defenderam uma nova leitura sobre o oceano: não como um recurso isolado, mas como uma plataforma capaz de conectar tecnologia, turismo, logística, sustentabilidade e desenvolvimento econômico.
Durante muito tempo, falar em economia do mar significava falar de portos, petróleo, pesca ou construção naval. Esses setores continuam sendo fundamentais, mas já não explicam sozinhos a dimensão da chamada economia azul e foi justamente essa provocação que abriu o painel realizado durante o Conecta Delas, evento do SEBRAE/RJ e da FACERJ com apoio da ACIERJ e da Prefeitura de Niterói na Sala Nelson Pereira dos Santos, em Niterói. Logo no início da conversa, a gestora de Relações Institucionais e Governamentais do iCities, Karyn Amoedo, propôs ampliar esse olhar.

Ao reunir representantes do poder público, da indústria naval, do ecossistema de inovação e da organização do Tomorrow.Blue Economy, o painel mostrou que o oceano passou a ocupar um novo lugar nas estratégias de desenvolvimento das cidades costeiras. A conversa tratou de como ciência, tecnologia, turismo, mobilidade, educação, infraestrutura, inovação e sustentabilidade podem atuar como parte de uma mesma agenda. Essa mudança de perspectiva ajuda a explicar porque o tema ganhou tanta relevância nos últimos anos.
UMA ECONOMIA QUE CONECTA SETORES
Uma das primeiras a aprofundar essa visão foi Lindália Junqueira, CEO da ÍONS Innovations e Hacking.Rio e presidente do Conselho do CT SMART. Para ela, ainda existe uma confusão entre economia do mar e economia azul, enquanto a primeira costuma ser associada às atividades tradicionais ligadas ao oceano, a segunda propõe uma lógica mais ampla: gerar desenvolvimento econômico preservando os ecossistemas e articulando diferentes atores em torno de uma estratégia comum.

Segundo Lindália, isso exige abandonar a lógica de setores isolados e passar a enxergar cadeias produtivas completas. Governo, universidades, startups, investidores, grandes empresas e empreendedores precisam trabalhar de forma integrada para transformar conhecimento em negócios: “Não existe inovação sem colaboração”, resumiu.
Ao ilustrar essa visão, ela citou exemplos que vão muito além do imaginário tradicional da economia marítima. Resíduos da pesca que poderiam abastecer a indústria de ômega 3, o cultivo de algas para produção de fertilizantes e biocombustíveis, novas tecnologias para monitoramento dos oceanos e soluções desenvolvidas por startups mostram que boa parte das oportunidades ainda está longe de ser explorada.
Se Lindália apresentou uma visão sistêmica da economia azul, a vice-prefeita de Niterói, Isabel Swan, mostrou como essa lógica começa a orientar políticas públicas.

“A primeira imagem que me vem à cabeça quando falamos em economia do mar é Niterói”, afirmou.
Ao longo de sua fala, ela apresentou uma série de projetos que buscam transformar a vocação marítima da cidade em desenvolvimento econômico. Entre eles estão a ampliação da mobilidade aquaviária, a implantação de novos píeres, a reativação do terminal pesqueiro, investimentos ligados ao turismo náutico e melhorias na infraestrutura portuária impulsionadas pela dragagem do Canal de São Lourenço.
“Quando a gente cuida dos rios, a gente está cuidando do mar”, essa frase resume uma característica central da economia azul: desenvolvimento econômico e preservação ambiental deixam de caminhar separados. Infraestrutura, saneamento, clima e qualidade das águas passam a fazer parte da mesma estratégia.
O POTENCIAL DO OCEANO EXIGE PROFISSIONALIZAÇÃO
A presidente do Estaleiro Mac Laren, Gisela MacLaren, trouxe a perspectiva da indústria, para ela, o Brasil ainda conhece pouco o potencial econômico do mar: “O mar é um território tão vasto e ainda tão desconhecido para muitos de nós.”
Ao citar oportunidades ligadas à mineração oceânica, energias renováveis, turismo e construção naval, ela fez um alerta: “Todo potencial do mar precisa ser olhado de forma profissional.” Na avaliação da executiva, isso passa por três pilares: qualificação de mão de obra, incorporação de tecnologia e políticas públicas capazes de oferecer segurança jurídica e condições para novos investimentos. Ela também chamou atenção para um desafio recorrente da indústria brasileira: transformar potencial em capacidade de execução.
Representando o Tomorrow Blue Economy, Cláudia Ramos, Head de Costumer Sucess do iCities, chamou atenção para outro aspecto pouco discutido, segundo ela, grandes transformações raramente começam em reuniões formais: grandes negócios não começam em mesas de escritório, eles surgem em eventos, encontros e ambientes capazes de aproximar pessoas, organizações e diferentes áreas do conhecimento. Na visão de Cláudia, esse é justamente o papel de iniciativas como o Tomorrow Blue Economy: criar espaços onde governo, empresas, pesquisadores, investidores e empreendedores possam construir agendas comuns para acelerar o desenvolvimento da economia azul.
Ela também lembrou que essa transformação passa, necessariamente, pelo fortalecimento da liderança feminina. “Não basta contratar mulheres, é preciso preparar as organizações para recebê-las.” Além de ampliar a participação feminina, ela defendeu a criação de ambientes capazes de sustentar carreiras, desenvolver lideranças e transformar exemplos individuais em mudanças estruturais.

Ainda na abertura do painel, Karyn Amoedo propôs uma reflexão que atravessou toda a conversa.
“Durante muito tempo dizia-se que o mar era um território masculino. Hoje mulheres lideram estaleiros, comandam políticas públicas, criam empresas de tecnologia e ocupam posições estratégicas na transformação da economia do mar. A pergunta deixou de ser se há espaço para mulheres. Ela passou a ser: como acelerar essa transformação?”
A resposta para essa pergunta apareceu ao longo de toda a discussão, passando pela capacidade de integrar diferentes setores, pela construção de políticas públicas consistentes, pelo fortalecimento da inovação, pela formação de novos profissionais e pela criação de ambientes onde mais mulheres possam liderar.
Ao final do painel, ficou evidente que a economia azul talvez seja menos sobre o mar do que sobre a capacidade de conectar diferentes competências em torno de um mesmo território. Mobilidade, turismo, indústria, ciência, inovação, educação, tecnologia, preservação ambiental e desenvolvimento econômico deixaram de aparecer como agendas paralelas e passaram a fazer parte da mesma conversa. E talvez seja justamente esse o principal movimento em curso nas cidades costeiras, o oceano continua sendo o ponto de partida.
Mas a discussão já não termina na água, ela alcança universidades, startups, empresas, governos, centros de pesquisa e comunidades que começam a construir novas formas de produzir, inovar e gerar desenvolvimento a partir de uma vocação que sempre esteve ali.
