Rio2C: a comunicação ainda é um dos maiores gargalos das startups
Participação no evento faz pensar que o maior desafio do ecossistema de inovação não é a busca por investidores, mas a desconexão entre o projeto e a narrativa que o sustenta. / Fotos: Divulgação
Na última semana, participei do Rio2C em três papéis diferentes: mentor, palestrante e avaliador da banca de soluções criativas. Foram dias intensos de conversas com empreendedores, estudantes, pesquisadores e profissionais que estão transformando conhecimento em projetos, projetos em negócios e negócios em soluções para problemas reais. Ao final dessa experiência, saí com uma convicção ainda mais forte sobre algo que venho observando há anos: a comunicação continua sendo um dos maiores gargalos das startups.
E quando falo em comunicação, não estou falando de redes sociais, não estou falando de anúncios e não estou falando de marketing. Estou falando da capacidade de explicar uma ideia, apresentar um problema, defender uma solução ou traduzir algo complexo para alguém que está ouvindo pela primeira vez. Porque algo inovador que não consegue ser compreendido dificilmente consegue ser apoiado.
Durante as mentorias, encontrei pessoas extremamente inteligentes, preparadas tecnicamente e profundamente envolvidas com seus projetos. Mas muitas delas tinham dificuldade para responder perguntas fundamentais:
O que exatamente você faz?
Que problema resolve?
Por que isso importa?
Por que alguém deveria acreditar nessa solução?
E o mais curioso é que essa dificuldade raramente estava relacionada à qualidade do projeto, ela estava relacionada à dificuldade de colocar aquele projeto em palavras. E isso me fez pensar em algo que vai muito além do universo das startups: as pessoas não foram ensinadas a falar sobre si mesmas, a contar suas histórias, a apresentar suas ideias nem a defender seus pontos de vista.
Na escola, aprendemos fórmulas, datas e conteúdos, mas poucos aprendem a organizar pensamentos, construir argumentos e comunicar uma visão. Na vida adulta, essa ausência cobra um preço alto, porque as oportunidades não aparecem apenas para quem tem uma boa ideia. Elas aparecem para quem consegue explicar por que aquela ideia merece atenção.
Ao longo desse ano, venho repetindo uma frase em aulas, mentorias e palestras: a comunicação não pode ser um acessório da inovação. Ela é parte da inovação, porque toda inovação nasce de uma tentativa de mudar a realidade. E toda mudança exige convencimento, você precisa convencer investidores, parceiros, clientes, equipes e mercado. E para convencer esses atores, é preciso comunicar.

Uma ponte entre a ideia e a oportunidade concreta
Durante as bancas do Rio2C, ficou muito evidente como a clareza acelera processos, porque quando alguém compreende profundamente o problema que está resolvendo, a narrativa flui, as respostas surgem com segurança, o discurso ganha consistência e a proposta se torna memorável. Em contrapartida, quando a comunicação é confusa, o projeto começa a perder força antes mesmo de ser analisado, porque ninguém consegue apoiar aquilo que não entende, nem investir naquilo que não consegue visualizar, nem defender aquilo que não consegue explicar.
Em um dos projetos avaliados, por exemplo, a solução buscava atender diferentes públicos simultaneamente e durante a apresentação, ficou evidente que o desafio não era apenas tecnológico. Havia um déficit de clareza. Quando um empreendedor ainda encontra dificuldade para explicar exatamente para quem está construindo, qual problema está resolvendo e qual transformação pretende gerar, a comunicação se torna um obstáculo para o próprio crescimento da ideia.
E isso acontece com muito mais frequência do que imaginamos, talvez porque ainda exista uma crença equivocada de que comunicação é algo que acontece depois. O framework natural é primeiro você constrói, depois você comunica; primeiro você desenvolve, depois você apresenta; primeiro você cria, depois você explica. Na prática, não funciona assim, porque comunicar também é construir, é validar, é testar.
“Na vida adulta, as oportunidades não aparecem apenas para quem tem uma boa ideia, mas para quem consegue explicar por que aquela ideia merece atenção”
Toda vez que você apresenta sua ideia para alguém, recebe perguntas, enfrenta objeções e precisa reorganizar seus argumentos, você está fortalecendo seu próprio projeto. Por isso, as mentorias, bancas e apresentações são tão valiosas, porque revelam os pontos cegos, mostram o que ainda não está claro, indicam o que precisa ser aprofundado e ajudam a transformar uma boa ideia em uma proposta mais sólida.
Ao final da semana, fiquei com a sensação de que o Brasil não sofre pela falta de pessoas criativas, muito pelo contrário, nós temos talentos extraordinários, pesquisas relevantes, empreendedores inquietos e projetos com enorme potencial. O desafio, muitas vezes, está em transformar tudo isso em narrativas compreensíveis, porque inovação não é apenas criar algo novo, é fazer com que outras pessoas consigam enxergar valor nesse novo. E entre uma boa ideia e uma oportunidade concreta, quase sempre existe uma ponte. O nome dessa ponte é comunicação.
